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Arcabuz

Arcabuz

É proibido fumar?

Expande-se a tendência de proibir o tabaco nos lugares públicos (ou lugares frequentados pelo público). Após a Irlanda, agora também a Noruega lança a interdição geral de fumar em bares, restaurantes ou cafés.

A medida seria desde logo despropositada se o objetivo fosse levar as pessoas a não fumar. Creio que o consumo de tabaco está naturalmente votado à extinção, ou a tornar-se residual nos próximos tempos. Cada vez menos gente começa a fumar, e cada vez mais gente deixa de fumar. Para mais, os fumadores morrem prematuramente, como me adverte o «simpático» maço pousado junto ao teclado. A maior parte dos fumadores, aliás, já se limita a aguentar com estoicismo as sucessivas investidas anti-tabágicas. Não se fuma no avião, nem no comboio. O maço ostenta o animador dizer «fumar mata». As marcas já não podem conter expressões como «light», «mild» ou «suave», o que me obriga diariamente a pedir, na tabacaria, um «português vermelho». Além de que, para além do tabaco, também a má alimentação (por exemplo) é um grave problema de saúde pública e não estou a ver proibirem-se a morcela e as papas de sarrabulho (livra! Eu emigrava!).

Despropositada também a medida se se pretendesse tutelar a saúde (ou, em geral, o bem-estar) dos clientes dos cafés, bares e restaurantes. Bem conheço alguns não-fumadores que dificilmente suportam o fumo de uma mesa de ávidas chaminés. Pois, mas também eu não suporto escapes dos carros nas horas de ponta, barulho das obras nas sagradas horas matinais ou a miscelânea enjoativa de perfumes na ópera. E também há cafés onde não se pode fumar...

Mas a medida não escapa ao despropósito por se esconder o moralismo fundamentalista politicamente correto sob a capa da proteção dos trabalhadores. É que, declaram os noruegueses, o objetivo primeiro é proteger os empregados daqueles estabelecimentos do consumo passivo de tabaco. Logo me ocorrem as hipóteses de não haver assalariados e o patrão fumar, ou havê-los e serem fumadores. Depois, para haver tratamento igual entre todos os trabalhadores, seria coerente a interdição de fumar em todos os locais de trabalho. Como qualquer sítio pode ser um local de trabalho, bem se vê onde acaba o raciocínio...

Por fim, o prejuízo que se causa aos fumadores é descomunal face ao benefício que se traz aos empregados. Não sei exatamente a proporção que assumem os danos para a saúde de empregados de café pelo facto de os seus clientes fumarem. Mas suponho que não sejam propriamente um cataclismo em termos de saúde pública. Entre o tasco da esquina e uma mina de carvão vai, apesar de tudo, uma grande diferença. Ora para um fumador como eu, privarem-me do trio café-jornal-cigarro é uma violência. E que pensar da situação em que após um jantar estupendo, já de digestivo à frente, se levanta metade da mesa e vai mandar umas baforadas à rua? E, num bar, uma multidão enfiada no denso fumaçal da casa de banho, a aspirar velozmente a maior quantidade possível de nicotina, para não ter que passar pela decadente situação tão cedo?

A haver coragem política para tal, tome-se como certo que tais estabelecimentos são lugares muitas vezes fumarentos, e em consequência crie-se a obrigação legal de atribuir aos respectivos trabalhadores um subsídio de insalubridade.

Resta-nos esperar que a barbárie norueguesa não contagie a nossa delicada civilização.

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