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Arcabuz

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Pronunciamento

Inspirado pelo My Moleskine, que cita o Esperando o tal Godot, ou isso..., que por sua vez cita o No Arame, também me apetece falar de hinos nacionais. Só para declarar a minha paixão por aquele que é de todos o mais belo: o soviético!

A letra é de Sergey Mikhalkov (pai de Nikita Mikhalkov, o do «Sol Enganador»), e a música de Alexander Alexandrov (nome castiço). O hino foi introduzido em 1944, substituindo a Internacional. Após a morte de Stalin, e como o hino lhe fizesse referência, a letra deixou de ser cantada. Em 1977 o texto foi reintroduzido já sem menção a Stalin. Em 1991, Yeltsin teve o descaramento de adoptar como hino nacional uma parva cançoneta. No ano 2000 readopta-se o antigo hino, mas com uma nova letra (que, a meu ver, lhe retira uma boa parte da pujança... talvez por agora ser cantado com menos convicção).

Aqui fica o link para a versão de 1977, interpretada pelo coro do teatro Bolshoi. Recomendo, para todo o tipo de males de espírito, uma audição diária, de preferência ao acordar.

Mesmo para quem, como eu, não percebe um chavo do assunto, fica sempre bem um pouco de rigor. “Despronunciamento” disse-se muito hoje, quer nas televisões, quer na primeira página do Público. Mas o despacho é de pronúncia ou de não pronúncia. Assim, ou há pronunciamento ou não pronunciamento. Não pode ser despronunciado quem não chegou a ser pronunciado.

É proibido fumar?

Expande-se a tendência de proibir o tabaco nos lugares públicos (ou lugares frequentados pelo público). Após a Irlanda, agora também a Noruega lança a interdição geral de fumar em bares, restaurantes ou cafés.

A medida seria desde logo despropositada se o objetivo fosse levar as pessoas a não fumar. Creio que o consumo de tabaco está naturalmente votado à extinção, ou a tornar-se residual nos próximos tempos. Cada vez menos gente começa a fumar, e cada vez mais gente deixa de fumar. Para mais, os fumadores morrem prematuramente, como me adverte o «simpático» maço pousado junto ao teclado. A maior parte dos fumadores, aliás, já se limita a aguentar com estoicismo as sucessivas investidas anti-tabágicas. Não se fuma no avião, nem no comboio. O maço ostenta o animador dizer «fumar mata». As marcas já não podem conter expressões como «light», «mild» ou «suave», o que me obriga diariamente a pedir, na tabacaria, um «português vermelho». Além de que, para além do tabaco, também a má alimentação (por exemplo) é um grave problema de saúde pública e não estou a ver proibirem-se a morcela e as papas de sarrabulho (livra! Eu emigrava!).

Despropositada também a medida se se pretendesse tutelar a saúde (ou, em geral, o bem-estar) dos clientes dos cafés, bares e restaurantes. Bem conheço alguns não-fumadores que dificilmente suportam o fumo de uma mesa de ávidas chaminés. Pois, mas também eu não suporto escapes dos carros nas horas de ponta, barulho das obras nas sagradas horas matinais ou a miscelânea enjoativa de perfumes na ópera. E também há cafés onde não se pode fumar...

Mas a medida não escapa ao despropósito por se esconder o moralismo fundamentalista politicamente correto sob a capa da proteção dos trabalhadores. É que, declaram os noruegueses, o objetivo primeiro é proteger os empregados daqueles estabelecimentos do consumo passivo de tabaco. Logo me ocorrem as hipóteses de não haver assalariados e o patrão fumar, ou havê-los e serem fumadores. Depois, para haver tratamento igual entre todos os trabalhadores, seria coerente a interdição de fumar em todos os locais de trabalho. Como qualquer sítio pode ser um local de trabalho, bem se vê onde acaba o raciocínio...

Por fim, o prejuízo que se causa aos fumadores é descomunal face ao benefício que se traz aos empregados. Não sei exatamente a proporção que assumem os danos para a saúde de empregados de café pelo facto de os seus clientes fumarem. Mas suponho que não sejam propriamente um cataclismo em termos de saúde pública. Entre o tasco da esquina e uma mina de carvão vai, apesar de tudo, uma grande diferença. Ora para um fumador como eu, privarem-me do trio café-jornal-cigarro é uma violência. E que pensar da situação em que após um jantar estupendo, já de digestivo à frente, se levanta metade da mesa e vai mandar umas baforadas à rua? E, num bar, uma multidão enfiada no denso fumaçal da casa de banho, a aspirar velozmente a maior quantidade possível de nicotina, para não ter que passar pela decadente situação tão cedo?

A haver coragem política para tal, tome-se como certo que tais estabelecimentos são lugares muitas vezes fumarentos, e em consequência crie-se a obrigação legal de atribuir aos respectivos trabalhadores um subsídio de insalubridade.

Resta-nos esperar que a barbárie norueguesa não contagie a nossa delicada civilização.

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